Crítica

Ali G: Ken é Eu?

Depois de 20 anos curtindo, fumando e transando, Ali G descobre que sua namorada, Me Julie, está grávida de oito meses. Com mais uma boca

Ali G: Ken é Eu? é bom? Quando Sacha Baron Cohen decidiu tirar da gaveta o seu personagem britânico mais marcante depois de mais de duas décadas, a reação da internet ficou dividida entre a nostalgia do humor politicamente incorreto dos anos 2000 e a dúvida se o formato ainda conversa com o público de hoje. O retorno do figuraça de Staines sob a chancela da Four by Two Films, Amazon MGM Studios e Working Title sinaliza que o humorista britânico não desistiu da sátira social escrachada, mesmo em um cenário cultural muito diferente do que o consagrou.

Analisando a trajetória do diretor e protagonista, vejo que ele montou uma sala de roteiristas respeitável para dar suporte à empreitada, reunindo nomes experientes da comédia como Anthony Hines, Peter Baynham e Dan Mazer — parceiros de longa data desde Borat (2006) e Brüno (2009) —, além de Keisha Zollar, Colton Dunn e Vernon Chatman. Essa mistura de forças veteranas com vozes mais recentes tenta equilibrar o choque de gerações que o próprio personagem carrega.

O longa chega como uma grande aposta de comédia irreverente na Amazon MGM Studios. A proposta é clara: entender se o tipo de humor performático de Cohen ainda consegue impactar em meio ao ecossistema dos streamings e das redes sociais. Se por um lado a premissa promete dar sobrevida ao legado do comediante, por outro ela carrega o risco inevitável de parecer um revival deslocado no tempo.

Qual é a história de Ali G: Ken é Eu?

Depois de vinte anos mantendo uma rotina focada em curtuição, fumo e relacionamentos, a vida de Ali G sofre uma reviravolta completa quando ele descobre que sua namorada, Me Julie, está grávida de oito meses. Pressionado pela necessidade iminente de sustentar a família e garantir o futuro de mais uma boca para alimentar, o protagonista decide abandonar sua rotina caótica na Inglaterra para tentar retomar sua antiga glória nos Estados Unidos.

Cena 1 de Ali G: Ken é Eu?
Ali G: Ken é Eu?

A jornada em solo americano, no entanto, passa longe de ser um passeio calmo. Ao desembarcar na América, o britânico se envolve em uma teia de confusões que atrai o interesse de adversários perigosos. As novas ameaças não colocam em risco apenas a sua integridade física e seus planos de retorno aos holofotes, mas também a própria existência do seu filho que está prestes a nascer.

Ficha técnica Detalhe
Direção Sacha Baron Cohen
Roteiro Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham, Dan Swimer, Dan Mazer, Keisha Zollar, Colton Dunn, Vernon Chatman
Elenco Principal Sacha Baron Cohen (Ali G / Nira Cain-N'Degeocello / Erran Morad), Morgana Robinson (Julie), Alpha Miknas (Manu), Clive Russell (Malcolm 'Rocky' Atkins), A$AP Rocky (A$AP Rocky)
Produção Four by Two Films, Amazon MGM Studios, Working Title

A receita antiga ainda faz rir ou parou nos anos 2000?

Sacha Baron Cohen sempre construiu sua carreira no limite do desconforto, utilizando personas absurdas para expor o preconceito e o absurdo das pessoas reais ao seu redor. Ao resgatar Ali G, a produção tenta validar o impacto cultural de uma figura que ajudou a moldar a comédia de pegadinhas e entrevistas falsas no início do milênio. Confesso que fiquei curioso para ver como essa estrutura se adapta ao público atual, especialmente ao colocar o personagem em solo americano novamente.

O grande trunfo desse retorno está no contraste gritante entre a imaturidade crônica do protagonista e a responsabilidade tardia da paternidade. O elenco escalado ajuda a dar sustentação a essa dinâmica absurda:

  • Sacha Baron Cohen: assume múltiplos papéis no projeto, retornando ao papel de Ali G e ressuscitando figuras como Nira Cain-N’Degeocello e Erran Morad.
  • Morgana Robinson: interpreta Julie (Me Julie), a eterna namorada do protagonista que agora enfrenta a gestação de oito meses.
  • Alpha Miknas: assume o papel do personagem Manu.
  • Clive Russell: vive Malcolm ‘Rocky’ Atkins na trama.
  • A$AP Rocky: faz uma participação especial interpretando a si mesmo, criando uma ponte cômica com a cultura hip-hop que o protagonista tanto tenta emular.

No entanto, a escolha de multiplicar Cohen em vários papéis — algo que ele já fez em projetos como Who Is America? (2018) — traz uma certa saturação. Essa divisão de atenção entre diferentes personas corre o risco de enfraquecer o arco principal da história, transformando o longa em uma colcha de retalhos de esboços cômicos, onde o enredo da gravidez de Julie acaba ficando em segundo plano perante as esquetes americanas.

Um prato cheio para nostálgicos ou uma cilada para novatos?

A existência de um filme como este fala diretamente com duas audiências muito distintas. Para quem cresceu assistindo ao Da Ali G Show nos anos 2000, o apelo é puramente nostálgico. O humor pastelão combinado com a linguagem rápida das ruas britânicas funciona como um resgate histórico da fase de ouro da comédia irreverente da época.

Para os espectadores mais jovens, porém, o choque cultural pode soar estranho. A figura do homem branco de classe média britânica que se apropria de maneirismos e gírias da cultura hip-hop jamaicana e americana é um tropeço deliberado que funcionava na virada do século justamente pelo absurdo da sátira, mas hoje encontra um público muito mais atento e crítico a esse tipo de caricatura.

A distribuição via Amazon MGM Studios mostra que a produtora entende esse nicho: o objetivo não é necessariamente agradar a crítica acadêmica, mas entregar um entretenimento direto para os fãs que acompanham o trabalho do comediante desde a Four by Two Films e Working Title. Quem busca uma sátira refinada pode se decepcionar, mas quem quer ver o caos instaurado em solo americano vai encontrar exatamente o tom esperado.

Vale a pena assistir Ali G: Ken é Eu?

O novo projeto de Sacha Baron Cohen entrega exatamente a dose de caos e politicamente incorreto que os fãs da antiga esperavam, impulsionado por uma premissa absurda de paternidade e pela presença de figurões da música como A$AP Rocky. Achei honesta a forma como o roteiro não tenta suavizar a personalidade do protagonista para os tempos modernos, mantendo a essência do humor que consagrou o criador.

Por outro lado, a produção tropeça ao tentar abraçar esquetes demais com múltiplos personagens de Cohen, o que por vezes desacelera o ritmo da narrativa principal e faz a história da gravidez parecer uma mera desculpa para colocar o comediante em situações constrangedoras na América. Não reinventa a roda do gênero, mas vale o combo da pipoca no fim de semana para quem quer desligar o cérebro e dar risadas com a cara de pau do personagem.

Perguntas frequentes

Ali G: Ken é Eu? é uma sequência direta do filme de 2002?

A sinopse oficial não confirma se a obra é uma continuação direta da história de Ali G Indahouse (2002), mas trata o projeto como um retorno do personagem após duas décadas de hiato, mostrando o impacto de vinte anos na vida do protagonista.

O filme é baseado em uma história real ou livro?

Não. O longa-metragem é uma ficção de comédia com roteiro original assinado por Sacha Baron Cohen, Anthony Hines, Peter Baynham e grande equipe de roteiristas.

Há cenas pós-créditos na exibição do longa?

Não é informado na referência se a produção conta com cenas extras ou surpresas após o encerramento dos créditos finais.

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