Crítica

Digger

Digger, novo projeto do diretor Alejandro G. Iñárritu financiado pela Warner Bros. e Legendary Pictures, traz Tom Cruise no papel do homem mais poderoso do mundo em uma corrida desesperada para salvar a humanidade de um caos que ele mesmo provocou. Com elenco estrelado que inclui Riz Ahmed, John Goodman e Sandra Hüller, a obra aposta em uma sátira dramática sobre poder e ego.

Confesso que sou um admirador de longa data do cinema visceral de Alejandro G. Iñárritu, e essa minha relação com a obra do cineasta mexicano costuma me deixar duplamente exigente a cada projeto novo que ele coloca na praça. Quando um diretor dessa magnitude junta forças com um astro do porte de Tom Cruise, a expectativa nunca é modesta. Trata-se do encontro entre um autor obcecado pelo colapso moral e um ator que transformou o controle absoluto da própria imagem em uma marca registrada de Hollywood.

Pôster do filme Digger mostrando o homem mais poderoso lutando para salvar a humanidade.
Digger

Esse encontro de gigantes ganha contornos ainda mais peculiares pelo apoio de grandes casas da indústria, como a Warner Bros. Pictures e a Legendary Pictures. Iñárritu construiu sua reputação internacional em trabalhos densos como Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014) e O Regresso (2015), produções que exigiam uma entrega física e psicológica quase extenuante de seus elencos. Ao escalar o homem à frente da franquia Missão: Impossível, o cineasta sinalizou que buscava algo além do drama tradicional.

A resposta do público e da crítica após a chegada da produção aos cinemas no final de setembro confirmou que a proposta provoca divisões intensas. O filme não se comporta como um blockbuster convencional de desastre, nem se fecha inteiramente no hermetismo do cinema de arte. Eu vi nessa fricção entre o espetáculo megalomaníaco e o estudo de personagem a grande faísca da obra, embora essa mesma dualidade seja a fonte dos seus momentos mais instáveis.

Qual é a história de Digger?

A trama acompanha Digger Rockwell (Tom Cruise), figurão apontado como o homem mais poderoso do planeta. Conhecido por seu alcance global e influência desmedida, o protagonista desencadeia um desastre de proporções catastróficas que coloca em risco o futuro de toda a civilização. Percebendo que o colapso iminente ameaça destruir tudo ao seu redor, ele parte em uma missão alucinada para tentar consertar o estrago.

A reviravolta dramática não está apenas no perigo iminente, mas na motivação do próprio herói. Rockwell não age apenas por altruísmo ou peso na consciência. A jornada do personagem se transforma em uma corrida frenética para provar ao mundo — e a si mesmo — que ele continua sendo o grande salvador da humanidade. É a busca desesperada pela redenção pública de alguém que não consegue aceitar a própria falibilidade.

Nesse cenário de crise global, o roteiro assinado por Iñárritu ao lado de Sabina Berman, Jez Butterworth, Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone posiciona o protagonista em rota de colisão com figuras de peso do poder político e científico. O elenco de apoio traz Riz Ahmed como Nirav Ganesh, John Goodman interpretando o Presidente Compson, Sandra Hüller no papel de Emma e Michael Stuhlbarg como o Vice-Presidente, formando a arena burocrática e tensa em que Rockwell tenta aplicar suas soluções desesperadas.

Ficha técnica Detalhe
Direção Alejandro G. Iñárritu
Roteiro Alejandro G. Iñárritu, Sabina Berman, Jez Butterworth, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone
Elenco Principal Tom Cruise (Digger Rockwell), Riz Ahmed (Nirav Ganesh), John Goodman (President Compson), Sandra Hüller (Emma), Michael Stuhlbarg (Vice President)
Produção Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, Domain Entertainment

O ego como espetáculo no cinema de Iñárritu

A colaboração entre Alejandro G. Iñárritu e o time de roteiristas — reeditando a parceria com Alexander Dinelaris e Nicolás Giacobone, vencedores do Oscar por Birdman — deixa claro qual é a verdadeira engrenagem desta narrativa. O filme usa a premissa do desastre global como um imenso espelho para a vaidade masculina e o delírio de onipotência. A frase de divulgação “Cave, ou morra” traduz perfeitamente essa urgência quase obsessiva que consome o protagonista do primeiro ao último minuto.

Achei fascinante como o projeto escala Tom Cruise em um papel que satiriza, indireta e brilhantemente, a própria persona pública do ator. Há décadas Cruise se consolidou como o salvador definitivo do cinema moderno, o sujeito que salta de aviões e corre sem parar para resgatar o dia. Colocá-lo no papel de Digger Rockwell, um homem que precisa desesperadamente ser enxergado como herói enquanto limpa a sujeira que ele próprio produziu, é uma das sacadas de escalação mais afiadas dos últimos anos.

O problema é que o roteiro por vezes se perde no próprio excesso de ambição. Ao tentar equilibrar a comédia ácida com o tom de gravidade de um drama existencialista, o texto tropeça em variações de ritmo incômodas. A profusão de roteiristas com assinaturas tão distintas deixa marcas na estrutura do filme, que alterna momentos de diálogo afiado e ágil com sequências arrastadas em gabinetes governamentais. A sensação que fica é a de uma obra que quer abraçar o mundo e acaba sufocando o impacto das suas próprias ideias.

Um elenco de peso travado pela burocracia do roteiro

Analisando a lista de nomes reunidos para este projeto, é impossível não notar o desperdício de talento em determinadas pontas da narrativa. A presença de Sandra Hüller, vinda do aclamado Anatomia de uma Queda (2023), e de Riz Ahmed indicava uma aposta pesada em atuações contidas e dramáticas para contrapor o peso de Tom Cruise. No entanto, o roteiro entrega a esse grupo papéis que funcionam mais como escadas para o delírio do protagonista do que como figuras tridimensionais.

John Goodman e Michael Stuhlbarg desempenham os papéis das lideranças políticas com o talento habitual, trazendo a carga de cinismo necessária para as cenas ambientadas na Casa Branca. Notei, contudo, que a dinâmica entre os governantes e Rockwell cai em repetições exaustivas ao longo do segundo ato. O conflito central gira repetidamente em torno da recusa do sistema em aceitar as saídas mirabolantes impostas por Rockwell, o que enfraquece a tensão no meio da narrativa.

Essa limitação dos coadjuvantes é a maior ressalva que faço à proposta da produção. Quando se tem um elenco tão qualificado reunido por estúdios de grande porte como Legendary e Warner, a expectativa é a de ver um embate de atuações memorável. O filme opta por concentrar quase todo o oxigênio dramático na figura de Cruise. A escolha faz sentido dentro da premissa sobre o egocentrismo do homem poderoso, mas cobra seu preço na construção de um universo mais rico ao redor do astro.

Para quem esta sátira do fim do mundo realmente funciona?

O apelo deste projeto varia drasticamente a depender do que o leitor busca ao sentar na poltrona do cinema. Se a intenção for encontrar um filme de ação tradicional com sequências de risco e resoluções heroicas típicas da carreira recente de Tom Cruise, a decepção é quase

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